Linha do Tempo

1513 - João Ramalho

Uma das personalidades históricas mais importantes para a ocupação do sertão brasileiro (como eram chamadas as terras ainda inexploradas do Brasil), que é pouco lembrado em nossa História se chama João Ramalho.

Ele já tinha fixado moradia antes da chegada de Martim Afonso de Souza em São Vicente, e se casou com uma índia nativa, chamada Bartira - que era uma das filhas do cacique Tibiriçá, líder da tribo dos Guianás, que ocupava grande parte do planalto brasileiro.

Este casamento, como demonstrou a História, foi uma ligação muito útil e estratégica, inclusive para existência da São Paulo de hoje.

Mais surge uma questão, como um português já morava no Brasil e se casara com nativos, antes da ocupação oficial dos territórios brasileiros por Portugal em 1530?

Acontece que logo após a comunicação da descoberta das terras do além mar, virou febre na Europa (ou meio para aliciar marinheiros) a busca por metais preciosos (ouro, prata e pedras preciosas) no novo continente, isto também incentivara as expedições de piratas, corsários e toda sorte de aventureiros, que a História oficial não conta. Que ameaçavam inclusive o domínio português sobre as terras concedidas pelo Tratado de Tordesilhas.

Não sabemos ao certo se João Ramalho foi um destes aventureiros ou um degredado*

Há correntes históricas, baseadas em ideologias políticas, que desvalorizam ou supervalorizam os ícones brasileiros, para atender interesses.

Certo é que João Ramalho existiu, não é uma lenda e foi um português nascido em Vouzela em 1493, que chegou ao Brasil por volta de 1513, (degredado ou aventureiro), fixou morada no Planalto, com sua esposa e diversos filhos em sua aldeia que foi batizada em 1553 de Vila de Santo André da Borda do Campo, por Martim Afonso de Souza.

Frei Gaspar, diz que Martim Afonso de Souza, checou diversos locais do litoral paulista para aportar, com as 27 famílias que trouxe para ocupar sua capitania e teria gostado da Região de Bertioga, mas sob influência de João Ramalho, que lhe sugeriu o Porto de Piassaguera (em São Vicente), por ter águas mais tranquilas e não possuir índios hostis – isto demonstra que a ocupação pelos portugueses não foi pacífica como diz a História tradicional.

Ao aportar em São Vicente, Martim Afonso de Souza foi recebido por cerca de 200 índios liderados por João Ramalho.

João Ramalho levou Martim Afonso a conhecer sua aldeia, e ao subir a serra (chamada de muralha) este disse ter andado ‘pelos caminhos dos infernos’, diante ao forte calor e precariedade das trilhas.

Por estratégia, ou para evitar o esvaziamento de São Vicente, era proibido aos portugueses se aventurar pelas matas fechadas (sertões) e de subir ao planalto, somente a João Ramalho e a seus seguidores era dada esta autorização.

João Ramalho era respeitado pelos índios por ser genro de Tibiriçá, e este ajudava a tribo dos Guaianás (Guaianases) a ocupar territórios e escravizar os índios vencidos, que eram vendidos como escravos em São Vicente.

Isto conferia a João Ramalho grande poderio político e econômico, que conduziram ao reconhecimento de sua Vila com autonomia em 1553, com a concessão do Pelourinho. Para se ter uma ideia deste poderio, a Vila de Santo André, ajudou com forças indígenas contra os Tamoios, estes eram aliados dos franceses que invadiram o Rio de Janeiro.

Este poderio e reconhecimento das autoridades locais, causava grande discórdia entre os jesuítas que conspiravam o tempo todo contra ele, primeiro pela promiscuidade (pois os Guaianases eram polígamos e João Ramalho detinha filhos com várias índias), depois que eles escravizavam os índios, e por fim que a Vila de Santo André, era muito exposta à invasão e a unificação era o melhor caminho – para São Paulo.

A Companhia de Jesus - Os Jesuítas, liderados por Anchieta e Manuel da Nóbrega, conseguiram influenciar o rei e determinar ao Governador Mem de Sá pela unificação das Vilas com a transferência do Pelourinho para a Vila de São Paulo.

João Ramalho, achando que ia morrer 1568 – fato que ocorrera somente em 1580 (já em São Paulo e após sobreviver a Confederação Tamoia – Grande Guerra que quase assolou a Vila de São Paulo) acometido de grave doença e achando que ia morrer: Confessou-se (que era um costume muito comum para redenção dos pecados antes da morte) e desta temos várias curiosidades, inclusive a de que seu nome não era João Ramalho , e sim, João Maldonado, veja a transcrição abaixo:

“Vossa Reverendíssima insiste ouvir-me em confissão? Compreendo e agradeço o cuidado. Já fiz 87 anos, amanhã vou apagar-me e quereis que eu vá sem mácula à presença do Criador. Porém, nesta passagem, mais temo por vós do que por mim. Explico-me e perdoai-me o doesto: sois muito verde, noviço recém chegado. Sem prévia vivência das terras do Brasil, não conseguireis entender os volteios da minha vida. Ireis ficar escandalizado como escandalizado ficou em tempos o Padre Manuel da Nóbrega, o fundador desta vila de S. Paulo. Chegou mesmo a pregar que petrascandali era toda a minha vida. Mais tarde corrigiu a opinião, mas que o disse, lá isso disse, e quase me excomungou.

Não, Padre, Ramalho é a minha alcunha por causa da minha barba que foi sempre ramalhuda. Maldonado é que é o apelido do meu pai. Nome de cristão novo, achais que sim? Antes de vós, já outros disseram o mesmo e até disseram que a rubrica ou gatafunho com que assino os documentos é um kaf, letra hebraica. Portanto, para eles, marrano fugido ou degredado para o Brasil serei eu. Outros opinam que eu sou apenas um náufrago que deu à costa. Nada disso eu desminto ou confirmo. Padre: mais vale cair no mar fundo do que rolar nas bocas do mundo... Contra correntes adversas, não vale a pena resistir-lhes. Não se perca o fôlego, é deixar que nos arrastem. Só quando começam a enlanguescer é que, num repelão, delas podemos nos safar. E eu safei-me, como estais vendo, pois venho aqui a morrer de velho. Padre, foi por entre duas águas que atravessei a vida.”

Grande parte dos índios seguidores de João Ramalho, que moravam na Vila de Santo André, não se adaptaram a rotina de rígidos trabalho e estudo impostos pelos jesuítas e abandonaram a Vila de São Paulo.

De São Paulo, saíram e formaram uma nova aldeia que se situava no atual bairro de Pinheiros, local onde futuramente o bandeirante Borga Gato manteve seu sítio e centro de suas expedições.

João Ramalho morreu em São Paulo em 1580, e foi dito por Frei Gaspar que manipulou o testamento que este o fizera, mas do mesmo modo que o Primeiro Livro de Atas da Vila de Santo André se perdera, talvez para virar uma lenda da História.

João Maldonado, apelidado por Ramalho (por conta de sua barba) entrou para a História por ser um homem de fibra que desbravou os sertões se aculturou com os índios, foi o guardião de duas culturas e marco do modo como os portugueses colonizariam o Brasil se misturando e se aliando, pois os conflitos culturais sempre existiram e continuam a existir.

Foi um herói sertanista sem farda, com certeza desnudo (como os índios andavam) e não por isso deixou de ter atitudes heroicas, um verdadeiro e esquecido herói luso-brasílico, assim o descreveu Affonso Taunay.

Esperamos que tenha gostado, pois conhecendo a História entendemos o presente, para planejar e mudar o futuro!

*Degredado é um termo legal antigo português usado para se referir a qualquer um que estava sujeito a restrições legais ao seu movimento, fala, trabalho ou exílio. Mas com o desenvolvimento do sistema português de transporte penal o termo degredado tornou-se sinónimo de um condenado ao exílio, em si referido como degredo).

João Ramalho - Representação

Pintura João Ramalho - obra de Benedito Calixto